O vazamento de mensagens atribuídas ao senador Flávio Bolsonaro e ao banqueiro Daniel Vorcaro provocou forte repercussão política e jurídica nesta quarta-feira (13). O conteúdo, divulgado pelo portal The Intercept Brasil, aponta tratativas para o financiamento milionário do filme “Dark Horse”, longa que pretende retratar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo a reportagem, Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época — para viabilizar a produção cinematográfica, prevista para estrear em 11 de setembro de 2026. Parte do valor, aproximadamente US$ 10 milhões, já teria sido transferida entre fevereiro e maio de 2025, em seis pagamentos distintos.
As conversas vieram à tona em meio às investigações envolvendo o Banco Master e após a prisão de Vorcaro, ocorrida em novembro de 2025, quando ele teria tentado deixar o país. O caso passou a mobilizar adversários políticos, aliados do bolsonarismo e setores da oposição.
Conversas mostram proximidade entre senador e banqueiro
As mensagens reveladas indicam uma relação de proximidade entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro ao longo de 2025. Em um dos diálogos divulgados, datado de 16 de novembro daquele ano, o senador pede apoio financeiro ao empresário.
“Estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”, escreveu Flávio Bolsonaro em mensagem enviada ao banqueiro.
Em outro trecho, de outubro de 2025, o parlamentar afirma que a produção do filme estava “no limite” financeiramente e cobra uma definição do empresário sobre novos aportes.
As conversas também apontam reuniões presenciais em São Paulo e um jantar reservado com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, ambos ligados ao projeto cinematográfico.
Segundo o material divulgado, o longa teria inspiração em produções conservadoras de forte apelo ideológico, seguindo linha semelhante à do filme Sound of Freedom, protagonizado por Caviezel.
Orçamento do filme supera produções premiadas de Hollywood
O valor atribuído ao financiamento de “Dark Horse” chamou atenção da indústria audiovisual por superar produções brasileiras e internacionais premiadas recentemente.
O orçamento estimado de R$ 134 milhões ultrapassa filmes nacionais como Ainda Estou Aqui, avaliado em cerca de R$ 45 milhões, e O Agente Secreto, com aproximadamente R$ 28 milhões de custo.
A cifra também supera longas vencedores do Oscar de Melhor Filme, como Moonlight, Parasita e Anora.
Flávio Bolsonaro defende legalidade do financiamento
Após a repercussão do caso, Flávio Bolsonaro divulgou nota afirmando que o financiamento do filme ocorreu exclusivamente com recursos privados.
O senador também defendeu a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o escândalo envolvendo o Banco Master e declarou que conheceu Daniel Vorcaro em 2024, período em que, segundo ele, ainda não existiam suspeitas públicas sobre o empresário.
“Foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero dinheiro público. Zero Lei Rouanet”, afirmou.
A defesa de Daniel Vorcaro informou que não comentaria o caso.
Pré-candidatos à Presidência reagem às revelações
O conteúdo das mensagens gerou reações imediatas entre pré-candidatos ao Palácio do Planalto.
O empresário Renan Santos criticou duramente Flávio Bolsonaro e associou o senador a outros escândalos políticos investigados nos últimos anos.
Já o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado cobrou transparência sobre a relação entre o senador e o banqueiro.
“O senador Flávio Bolsonaro deve responder aos questionamentos sobre o financiamento do filme e as relações com o dono do Master”, declarou.
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema também criticou o episódio e afirmou que a revelação representa “um tapa na cara dos brasileiros”.
Banco Master segue no centro das investigações
Daniel Vorcaro permanece preso desde março de 2026. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República analisam uma nova versão do acordo de delação premiada apresentado pelo empresário.
A primeira proposta havia sido rejeitada pelos investigadores sob alegação de inconsistências e ausência de respostas consideradas centrais para o avanço das apurações.
As investigações analisam movimentações financeiras, relações políticas e suspeitas envolvendo operações do Banco Master.
Relação entre política, cinema e financiamento privado amplia debate
A divulgação das mensagens também reacendeu o debate sobre financiamento privado de produções audiovisuais com conteúdo político e ideológico.
Especialistas apontam que, embora não exista ilegalidade automática no patrocínio privado de filmes, o contexto envolvendo um banqueiro investigado e um senador da República pode ampliar questionamentos políticos e jurídicos sobre eventual tráfico de influência, conflitos de interesse e uso de proximidade institucional.
Até o momento, não há decisão judicial apontando irregularidade direta no financiamento do filme “Dark Horse”.
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Com informações do Intercept Brasil e da redação nacional da Jovem Pan*
Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Porto Velho e Vitória


